Cultura de Confiança

Criadores de conteúdo dialogam com Poder Executivo sobre políticas públicas

2/7/2026

A economia dos criadores de conteúdo gera empregos, movimenta pequenos negócios e cria novas formas de empreendedorismo no Brasil. Mas, para quem vive desse mercado, o crescimento acelerado do setor ainda não foi acompanhado pelo poder público.

Esse foi o principal consenso dos debates realizados durante o evento Diálogos com Poder, iniciativa realizada pela Redes Cordiais, com apoio do YouTube, que reuniu, no dia 30 de junho, em Brasília, criadores de conteúdo, representantes do Sebrae, da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) e o ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, para discutir os desafios da chamada Creator Economy e sua inserção nas políticas públicas.

O encontro aconteceu em um momento de expansão do setor. Segundo estudo da FGV em parceria com a Hotmart, a economia dos criadores já gera mais de 389 mil empregos diretos e indiretos no Brasil e cresceu 30% em apenas um ano. A pesquisa mostra ainda que 42% dos criadores têm nos produtos digitais sua principal fonte de renda.

Para Victor Vicente, diretor de projetos da Redes Cordiais, aproximar criadores e formuladores de políticas públicas é um passo importante para fortalecer esse ecossistema.

"Os criadores de conteúdo já são parte importante da economia digital brasileira. Eles geram renda, empregos, movimentam pequenos negócios e ajudam a traduzir temas complexos para milhões de pessoas. Aproximá-los dos formuladores de políticas públicas é uma forma de fortalecer e qualificar esse ecossistema."

Reconhecimento profissional ainda é o principal desafio

Embora atuem em áreas diferentes - da educação técnica ao entretenimento, passando pela educação financeira ao empreendedorismo - os criadores convidados compartilharam uma preocupação em comum: o reconhecimento da criação de conteúdo como atividade profissional.

Para o publicitário e CEO do @MeltedVideosBR, Yuri Zero, esse reconhecimento precisa se refletir principalmente nas relações comerciais estabelecidas com marcas e empresas. De acordo com ele, é urgente criar mecanismos que garantam maior previsibilidade nos pagamentos aos criadores. 

"A criatividade depende de uma forma muito prática: manter essas empresas ativas e operando", afirmou. 

Para Yuri, os criadores precisam ser reconhecidos como fornecedores da cadeia produtiva, com segurança para planejar seus negócios e manter suas equipes. 

Thiago Guimarães, do canal @OraThiago, acrescentou que o reconhecimento da profissão também passa por enfrentar a assimetria na relação entre criadores e plataformas digitais. Para ele, embora sejam protagonistas da Creator Economy, os criadores têm pouco controle sobre a infraestrutura que sustenta esse mercado, o que reforça a necessidade de o tema integrar a agenda de políticas públicas. 

Já Verônica Oliveira, criadora do @faxinaboa, destacou que antes mesmo de novas políticas públicas, é necessário que os próprios profissionais se reconheçam, também, como empreendedores. Verônica contou que só compreendeu a importância da formalização depois de sofrer um acidente de trabalho e descobrir que não teria acesso à proteção social por não possuir um registro como MEI. 

"As pessoas (que criam na internet) também precisam entender que são empreendedoras e conhecer os próprios direitos", ressaltou.

Crédito e impacto social

Outro tema recorrente foi a necessidade de ampliar o acesso ao crédito para pequenos empreendedores digitais. A jornalista Amanda Dias, fundadora do @GranaPreta, destacou que essa é uma demanda especialmente importante para mulheres negras empreendedoras, principal público que acompanha seu trabalho. Segundo ela, muitas empreendem por necessidade e enfrentam dificuldades para acessar financiamento capaz de transformar pequenos negócios em empresas sustentáveis.

"O crédito é fundamental para que os negócios saiam dessa lógica da sobrevivência e passem a prosperar", disse.

Amanda também defendeu que políticas públicas considerem o impacto social desses empreendimentos, que muitas vezes não conseguem atender às métricas tradicionais do mercado, mas produzem transformações duradouras nas comunidades onde atuam.

Uma indústria que ainda precisa ser compreendida

A necessidade de tornar mais visível a dimensão econômica da Creator Economy também apareceu nas falas dos demais participantes. Criador do universo de animação infantojuvenil @Torajo, Bruno Gemin explicou que o criador de conteúdo se tornou indissociável de outros setores da economia. Em seu caso, sua produção audiovisual gerou negócios envolvendo licenciamento, livros, pelúcias, música, espetáculos, etc. 

"O maior desafio é mostrar que isso existe", resumiu.

Já Henrique Mattede, fundador do @MundoDaElétrica, defendeu que o poder público aproveite a credibilidade dos criadores especializados para ampliar o alcance de campanhas e informações de interesse público. Na avaliação dele, embora empresas privadas reconheçam o trabalho realizado por criadores de nicho, essa aproximação ainda é pequena no setor público.

Sebrae defende estruturação do setor

Representando o Sebrae Nacional, Janaína Camilo afirmou que um dos principais objetivos da instituição é fazer com que os criadores se reconheçam como empreendedores.

Ela destacou que esses profissionais já desempenham um papel estratégico para milhares de pequenos negócios, ampliando vendas, fortalecendo o posicionamento digital e conectando empresas a novos públicos. 

Ela defende a criação de um CNAE específico para criadores de conteúdo, medida que permitiria produzir dados sobre o setor, desenvolver soluções direcionadas e subsidiar políticas públicas voltadas à Creator Economy.

Governo sinaliza construção de agenda

Ao final do encontro, o Ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, reconheceu que o crescimento da economia digital exige uma atualização da atuação do Estado. Para ele, o primeiro passo é compreender melhor o setor por meio da produção de dados públicos e do diálogo permanente com os próprios criadores.

Ele assegurou que essa agenda deve incluir medidas para ampliar o acesso ao crédito, organizar instrumentos de fomento ao empreendedorismo digital e pensar novas formas de utilizar a Creator Economy na promoção de políticas públicas e campanhas de interesse social. 

"Nós, gestores públicos, vamos ter que nos adaptar, aprender a lidar com esse ambiente."

O Ministério do Empreendedorismo destacou que a Creator Economy representa uma nova fronteira do empreendedorismo brasileiro e defendeu o fortalecimento de políticas voltadas à formalização, profissionalização e desenvolvimento do setor. A pasta também ressaltou a importância de construir soluções em parceria com os próprios criadores, reconhecendo seu papel na geração de renda, inovação e desenvolvimento econômico.

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