Quanto custa um serviço público? E o que a sociedade recebe de volta? Essas perguntas estiveram no centro do Encontro Bem Público, que reuniu criadores de conteúdo de diferentes regiões e áreas de atuação para discutir comunicação, serviço público e os chamados penduricalhos e supersalários.
O tema ganhou espaço nas redes sociais nos últimos meses. Um levantamento apresentado pela Agência Lupa durante o encontro analisou 935 mil publicações sobre servidor público, funcionalismo público e carreira pública em um período de 12 meses. Desse total, 439 mil mencionavam especificamente os chamados penduricalhos — benefícios e vantagens adicionais aos salários. Ou seja, quase metade das conversas sobre funcionalismo público nas redes (47%) envolvia o tema.
Os dados apresentados também ajudam a dimensionar o impacto financeiro da questão. Segundo estudo da República.org e do Movimento Pessoas à Frente, pagamentos acima do teto constitucional custaram ao menos R$ 20 bilhões aos cofres públicos entre agosto de 2024 e julho de 2025. No período analisado, 53,5 mil servidores receberam acima do limite legal de R$ 46,4 mil: o equivalente a 1,34% dos 4 milhões de profissionais considerados no estudo.
Os achados mostram ainda que o problema está concentrado em determinadas carreiras. Enquanto sete em cada dez servidores públicos recebem até R$ 6.189, quase 40 mil estão entre o 1% mais rico da população, com renda anual superior a R$ 685 mil. Entre os grupos mais associados aos pagamentos acima do teto estão carreiras do Judiciário.
O debate não se resume aos valores. Os dados apresentados apontam que 90,5% dos brasileiros apoiam, total ou parcialmente, medidas para restringir pagamentos acima do teto, enquanto outro levantamento, do Datafolha com o Movimento Pessoas à Frente, mostrou que 83% da população defende a revisão de benefícios e auxílios para impedir supersalários.
Nas redes, alguns dos benefícios que mais provocam reação são justamente os chamados “auxílio-peru”, “auxílio-panetone” e “auxílio-iPhone”. A pesquisa da Lupa identificou ainda que a percepção de “penduricalho” não se estende ao conjunto do funcionalismo: há uma distinção entre benefícios considerados legítimos, como vale-transporte, auxílio-refeição e auxílio-saúde, e vantagens vistas como excessivas ou sem relação clara com uma necessidade.
É nesse ponto que a comunicação se torna parte fundamental do debate. Se os termos, números e regras que envolvem o serviço público permanecem restritos a especialistas, a discussão dificilmente chega a quem é diretamente impactado por ela: a população.
Foi justamente para discutir esse papel da comunicação que o encontro reuniu criadores com públicos, territórios e experiências tão diferentes. A proposta do Bem Público parte da ideia de que o serviço público está presente em dimensões diversas da vida cotidiana e que os criadores podem ajudar a tornar essa presença mais visível e compreensível.
Para Lucas Galdino, jornalista e criador de conteúdo, contar histórias é uma maneira de aproximar as pessoas de temas sociais que poderiam gerar resistência quando apresentados apenas como discurso. Segundo ele, a emoção permite que diferentes públicos se reconheçam nas experiências de outras pessoas e ajuda a romper preconceitos. Uma pesquisa realizada com a comunidade do canal dele, o Histórias de Terapia, mostrou que 79% dos participantes afirmaram ter mudado suas atitudes depois de ouvir os relatos.
Essa preocupação com a linguagem também aparece no trabalho de Anaterra. Para ela, ouvir o público e falar de uma maneira próxima do cotidiano é fundamental para que uma informação seja compreendida.
“Se você estiver falando de um jeito que a população não fala, a população não vai ter interesse, a população não vai entender”, afirmou.
A experiência de Rene Silva, fundador do Voz das Comunidades, mostra como essa comunicação pode se tornar uma ferramenta de participação social. Durante a pandemia da Covid-19, o veículo se articulou com médicos, enfermeiros e gestores de Clínicas da Família do Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro, para produzir dados sobre a realidade local, diante da falta de transparência das informações oficiais. O resultado foi a criação de um painel próprio sobre casos e mortes pela doença na região.
Para Rene, o jornalismo comunitário tem um papel fundamental na garantia de direitos. Quando moradores conhecem sua realidade e têm acesso à informação, conseguem cobrar e reivindicar melhorias para seus territórios.
No Alto Sertão de Alagoas, Douglas Ciríaco também entendeu isso. Ele relatou que usa a internet para aproximar o público de uma realidade que muitas vezes fica invisível aos grandes meios de comunicação. Médico e criador de conteúdo, ele mostra o cotidiano de pacientes que dependem do SUS em áreas rurais e cidades pequenas.
“Aquela UBSzinha lá da zona rural de uma cidadezinha, às vezes, fica esquecida”, afirmou. Para Douglas, é justamente nesse espaço que a internet pode dar visibilidade a populações que não costumam aparecer nas narrativas nacionais sobre saúde pública.
A comunicação feita a partir dos territórios também é central para Raull Santiago, do Instituto Papo Reto. Segundo ele, o primeiro objetivo de seu trabalho é falar com a própria comunidade, utilizando uma linguagem que aproxime e não exclua.
“A gente usa linguagem simples, comum. Uma linguagem nossa para conversar entre nós e multiplicar informações que são necessárias e urgentes de chegar na favela”, explicou.
Já Anne Caroline, a Gari Gata, trouxe para o encontro a experiência de quem conhece o serviço público por dentro. Concursada pela Prefeitura de Belém, ela também atua como professora e produz conteúdo nas redes. Para ela, a educação foi fundamental em sua trajetória e a estabilidade proporcionada pelo serviço público também teve papel importante em suas escolhas profissionais.
Ao reunir essas experiências, o Bem Público mostrou que não existe uma única maneira de comunicar o serviço público. Há quem conte histórias, quem traduza informações complexas, quem dê visibilidade a territórios esquecidos, quem fale a partir da própria experiência profissional e quem use a internet para disputar narrativas.
É justamente essa diversidade que pode ajudar a aproximar temas como os penduricalhos e supersalários da vida cotidiana. Afinal, entender como o dinheiro público é gasto, quais benefícios são pagos e quem é beneficiado não deveria ser uma conversa restrita a especialistas. É uma discussão sobre o funcionamento das instituições, sobre direitos, deveres e, principalmente, sobre o tipo de serviço público que a sociedade quer construir.

Encontro promovido pela Redes Cordiais e pelo YouTube reuniu criadoras de conteúdo, autoridades públicas e representantes do Judiciário para discutir misoginia online, violência de gênero digital e democracia