A inteligência artificial já faz parte do processo eleitoral brasileiro e deve ter papel ainda mais relevante nas eleições de 2026. O desafio, segundo especialistas reunidos no evento Jornalismo.IA: eleições na era da Inteligência Artificial, realizado pela Redes Cordiais e pelo ITS Rio, em parceria com a PUC-Rio e com apoio do Consulado Geral da República Federal da Alemanha, é equilibrar inovação tecnológica, integridade eleitoral e liberdade de expressão.
Para a advogada, professora e ministra do Tribunal Superior Eleitoral (2023-2025) Edilene Lôbo, que fez a conferência de abertura, o Brasil chega a esse debate com uma vantagem importante: a experiência acumulada na adoção de tecnologias eleitorais e na construção de marcos regulatórios.
“O Brasil tem uma experimentação relativamente longa no campo da tecnologia”, afirmou.
Em sua apresentação, ela mostrou como essa trajetória remonta ao Código Eleitoral de 1932 e alcança um marco importante em 1996, com a introdução da urna eletrônica - que este ano celebra o marco de 30 anos de existência.
Além da experiência tecnológica, Edilene destacou o histórico brasileiro de regulação. Para ela, o país acumula mais de uma década de debates sobre governança digital, desde a construção do Marco Civil da Internet até as discussões atuais sobre inteligência artificial.
“Além da vivência e da aplicação da tecnologia, temos expertise na construção de regulação da tecnologia”, resumiu.
Entre as mudanças previstas para o próximo pleito, estão medidas voltadas ao uso de conteúdos gerados por inteligência artificial. Carlos Affonso, diretor do ITS Rio, destacou que as normas eleitorais já exigem identificação de conteúdos produzidos com IA e proíbem o uso de avatares capazes de confundir o eleitor sobre quem é um candidato real e quem é um personagem sintético.
Ele explica que uma das novidades para 2026 é a proibição de sistemas de IA responderem a perguntas dos usuários indicando em quem votar. “Em 2026, o TSE traz uma novidade sobre a questão da proibição de ranqueamento para que as IAs acabem não respondendo aos usuários dizendo: ‘é melhor você votar no candidato A, B ou Z’.”
Carlos Affonso também chamou atenção para o que chamou de “lei seca da IA”, que prevê restrições à circulação de conteúdos produzidos por inteligência artificial nas 72 horas anteriores ao pleito e nas 24 horas posteriores à votação. “Vai ser um desafio. Vamos ver como é que ela vai ser aplicada nas eleições de 2026”, avaliou.
Embora vídeos falsos e montagens realistas estejam no centro das preocupações públicas, a pesquisadora Tatiana Dourado, da PUC-Rio, acredita que os maiores riscos podem estar em formas menos visíveis de manipulação. “Eu acho que o risco democrático é a captura, de uma forma geral, do debate público.”
Para ela, o problema não se resume à falsificação de conteúdos, mas à capacidade da inteligência artificial de ampliar campanhas de influência, automatizar interações e criar percepções artificiais sobre o que está acontecendo no ambiente político.
“Pode simular engajamento, manter conversas, simular interações nos ambientes digitais. Isso pode levar a uma percepção muito equivocada do que está acontecendo na realidade.”
Segundo a pesquisadora, a escala e a velocidade proporcionadas por essas ferramentas tornam os processos de manipulação mais difíceis de identificar e controlar.
Se a inteligência artificial amplia os desafios da informação, especialistas defendem que a resposta do jornalismo passa pela transparência.
Para Ester Borges, diretora de pesquisa da Momentum Journalism & Tech Task Force, a credibilidade da imprensa depende cada vez mais da capacidade de explicar seus processos ao público.
“O jornalismo pode fortalecer a confiança da sociedade na informação e nas instituições a partir do momento que ele se prova diferente de um conteúdo sintético.”
Ela defende que redações deixem claro quando utilizam inteligência artificial, por que a ferramenta foi empregada e quais critérios orientaram o uso. “Tudo está relacionado com a transparência e com trazer a audiência para perto.”
Na avaliação da pesquisadora, selos de identificação são importantes, mas só funcionam plenamente quando acompanhados de explicações que permitam ao público compreender como a tecnologia foi utilizada.
A discussão também envolve mudanças no cotidiano das redações. Myrian Pereira, diretora de jornalismo da EBC, afirmou que a empresa tem investido em processos de letramento em inteligência artificial para seus profissionais.
“A gente chama de letramento. Que é para você saber utilizar, justamente não só no período de eleição, mas em todo tipo de cobertura.”
Segundo ela, a IA já auxilia tarefas como cruzamento de dados e checagem de informações, mas não substitui o trabalho jornalístico. “A IA não vai substituir a apuração, a fonte política.”
Para Myrian, o papel da comunicação pública torna essa responsabilidade ainda maior: “o próprio cidadão vê na TV pública, na rádio, na comunicação pública, um porto seguro.”
Outro tema central do debate foi a atuação das plataformas digitais. Para o pesquisador Marcelo Alves, da PUC-Rio, a discussão sobre responsabilização precisa diferenciar conteúdos orgânicos daqueles impulsionados financeiramente. “O primeiro elemento para se debater a responsabilização é quando envolve o impulsionamento direto.”
Segundo ele, quando existe pagamento para ampliar a circulação de uma mensagem, também deve existir responsabilidade sobre o conteúdo promovido. “Nesses casos específicos, há uma responsabilização também pelo conteúdo que é produzido.”
Apesar das transformações tecnológicas, especialistas concordam que algumas competências permanecem insubstituíveis. Para Daniel Biasetto, editor de conteúdo de O Globo, a principal habilidade do jornalista segue sendo a mesma: apurar. “Uma informação que é apenas uma vez checada, não está checada.”
Para ele, a inteligência artificial deve ser encarada como uma ferramenta de apoio, capaz de ajudar em tarefas operacionais, mas incapaz de substituir a observação, a investigação e a experiência humana.
“A IA não vai acabar com o jornalismo e muito menos com o emprego do jornalista.” No entendimento dele, a diferença continuará sendo feita pela capacidade humana de descobrir histórias e compreender a realidade. “Se você perguntar pra IA qual é o cheiro de uma fruta, ela não vai saber responder.”
Entre avanços tecnológicos, novas regras e desafios regulatórios, a mensagem compartilhada pelos participantes do encontro foi semelhante: a inteligência artificial deve ocupar um espaço cada vez maior nas eleições, mas a confiança pública continuará dependendo de princípios antigos - transparência, responsabilidade, regulação e apuração rigorosa.

Evento “Crescer em Rede”, realizado pelo Redes Cordiais em parceria com a Secretaria Nacional de Direitos Digitais, reúne 23 criadores de conteúdo para discutir os impactos da nova legislação que entra em vigor dia 17