Desconfiança, medo, pavor, destruição. Cuidado, cautela. Mas também empoderamento, ajuda, democratização e otimismo. As palavras escolhidas por criadores de conteúdo para definir sua relação com a inteligência artificial mostram que, se a tecnologia já faz parte do cotidiano da produção digital, ainda está longe de despertar consenso. Entre a curiosidade pelas possibilidades que oferece e a preocupação com seus impactos, uma questão atravessa diferentes experiências: até onde delegar à máquina sem abrir mão daquilo que torna um conteúdo humano, autoral e confiável?
Esse foi o ponto de partida do encontro “IA para Criadores de Conteúdo: Ética e Responsabilidades”, realizado pela Redes Cordiais e UNESCO, com apoio do Google e YouTube, no dia 1º de outubro, em São Paulo. A oficina reuniu 22 criadores de diferentes áreas de atuação, que, juntos, somam cerca de 93 milhões de seguidores e inscritos nas redes sociais, para discutir os usos da inteligência artificial na produção de conteúdo e os desafios que acompanham sua incorporação à rotina de trabalho.
As discussões do encontro tiveram como base o novo Kit de Ferramentas dos Supercriadores, guia de alfabetização midiática e informacional para criadores de conteúdo desenvolvido pela UNESCO e que será lançado em breve. O material traz orientações práticas para o uso da IA ao longo do processo criativo e aborda temas como verificação de informações, transparência, vieses, mídia sintética e responsabilidade editorial.
Além de conhecer e testar as orientações do guia, os participantes compartilharam experiências sobre como já utilizam ferramentas de IA, discutiram situações concretas de suas rotinas e contribuíram com dúvidas, sugestões e percepções para o aprimoramento do material.
“A IA já faz parte da rotina de muitos criadores. A questão agora é como incorporá-la sem terceirizar para a tecnologia decisões e a autenticidade que continuam sendo humanas: o que verificar, o que publicar, como contextualizar e quando ser transparente com o público. É nessa fronteira que queremos trabalhar”, afirma Clara Becker, codiretora-executiva da Redes Cordiais.
Se as ferramentas são as mesmas, a forma como cada criador se relaciona com elas está longe de ser uniforme. Tadeu França, do Papo de Pai Podcast, produz conteúdo sobre paternidade e masculinidade e escolheu a palavra “desconfiança” para resumir sua relação com a IA. Ele conta que utiliza a tecnologia para refinar algumas ideias, mas mantém distância das respostas prontas. “Eu não consigo botar muita fé nas coisas que ela traz”, afirma. Para ele, a experiência pessoal que sustenta seu conteúdo como pai impõe um limite claro ao que pode ser delegado a uma ferramenta que não conhece essa experiência.
A percepção encontra eco na fala de Mônica Romeiro, do canal Almanaque dos Pais, que produz conteúdo sobre maternidade e parentalidade. Ela vê utilidade na IA como apoio para discutir e desenvolver ideias, mas não como substituta de seu processo criativo. “Ela não substitui o meu roteiro, ela não substitui uma série de coisas que eu posso fazer, que é o que faz o meu canal. O meu canal sou eu”, afirma. Para definir o lugar que a tecnologia ocupa em sua rotina, Mônica escolheu uma palavra bem-humorada: “estagiário”.
A comunicadora e escritora Rosana Hermann também enxerga a IA como uma ferramenta de apoio. Uma espécie de assistente com quem é possível “bater bola”, pesquisar e organizar ideias. Mas chama atenção para uma distinção fundamental:
“Eu sempre lembro que ela é um modelo matemático e probabilístico. Não é uma pessoa”.
Para Rosana, a tecnologia pode ajudar no processo, mas não carrega a experiência concreta que está por trás da produção humana. Não tem memória de infância, relações familiares ou vivências cotidianas: elementos que não podem ser reproduzidos apenas a partir de padrões e probabilidades.
Em outros participantes, as incertezas aparecem de maneira ainda mais intensa. Míriam Castro, do canal Mikann, criadora que fala sobre filmes, séries e cultura pop, escolheu “desespero” para definir sua relação com o momento atual da inteligência artificial. A preocupação dela passa tanto pela velocidade das transformações quanto pela maneira como diferentes tecnologias acabam reunidas sob o mesmo rótulo. Para ela, é importante distinguir recursos tecnológicos e de aprendizado de máquina que já faziam parte de ferramentas de edição, por exemplo, da atual expansão dos modelos de IA generativa e da corrida comercial em torno deles.
Já Adriana Arcebispo, da Família Quilombo, escolheu “evitativa”. Escritora, assistente social e criadora de conteúdo sobre família e questões raciais, ela conta que já utiliza a inteligência artificial para pesquisas, mas evita incorporá-la diretamente à criação. A resistência não vem apenas de uma rejeição à tecnologia, mas do receio de que a facilidade se transforme em dependência.
“Eu quero usar, mas tenho medo de ficar num ciclo sem fim de criação que faça com que eu dependa dessa inteligência”, explica.